3 de janeiro de 2011

O futebol é um meio de conscientização das contradições da sociedade


Entrevista Marcos Alvito
"O futebol é um meio de conscientização das contradições da sociedade"
Por Débora Prado
Antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense, Marcos Alvito foi um dos idealizadores da Associação Nacional dos Torcedores (ANT), que luta pela defesa do futebol brasileiro como arte, cultura e um patrimônio popular. A associação teve sua primeira chapa para diretoria eleita no dia 12 de dezembro, cerca de dois meses após a fundação, e deve votar seu estatuto no começo do ano que vem. Já com mais de 2,5 mil associados, entre os objetivos da ANT estão a luta contra a retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas e a exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol. Em entrevista a Caros Amigos, Alvito fala sobre a associação e o potencial pedagógico e transformador que o futebol pode ter se não expropriado somente para fins mercadológicos. Confira:
Caros Amigos - O que é ANT, por que ela foi fundada e o que ela busca?
A ANT é uma entidade autônoma, supra-clubistica, apartidária, porém política – entendida num sentido amplo de uma luta pela cidadania torcedora. Ela é formada por torcedores individualmente, ela não tem nenhuma ligação com as torcidas organizadas, embora a gente considere as organizadas como parte da cultura do futebol e sejamos contra a criminalização destas torcidas. Mas, a ANT é formada por indivíduos que se associam livremente. Ela tem como objetivo principal lutar pela defesa do futebol brasileiro como arte e cultura popular e também como um patrimônio que está sendo expropriado num processo perverso, que está sendo travestido de uma modernização e que na verdade não é modernização, pois se mantém intactas as estruturas arcaicas do futebol brasileiro, permitindo uma livre exploração do futebol por parte do capital.
Esse futebol não é moderno. Você tem uma estrutura feudal do ponto de vista das decisões, com clubes que são aristocráticos, com dirigentes que se perpetuam no poder, com todo tipo de manobras palacianas, intrigas de corte, etc. Estamos em plena Idade Média por um lado e por outro há o capitalismo selvagem, em que se aumenta o ingresso na hora que quiser e bem acima da inflação. Há um aumento abusivo de preço, mas cadê a defesa do consumidor, o ministério público, a defensoria pública? Não tem, porque você não tem ninguém que represente os torcedores. Por isso a gente tem que ter uma associação para representar os interesses dos torcedores. Só que a nossa associação não vê o futebol desligado do movimento social, a gente vê o futebol como cultura popular e um meio de conscientização das contradições que atravessam a sociedade.
Caros Amigos - Como está o calendário da ANT?
A gente vai ter um congresso da ANT em janeiro ou fevereiro para votar o nosso estatuto, para fazermos a primeira grande convenção nacional. E assim que começar o Campeonato Brasileiro, na primeira rodada, a gente vai fazer o “Dia do Pinico”. Como a gente não é bárbaro e achamos que a árvore é um ser vivo, nós vamos levar pinicos para os jogos da primeira rodada do Brasileiro, já que não tem banheiro químico.
A gente quer se organizar durante as férias e depois de votado nosso estatuto a vamos entrar com ações legais. Por exemplo, o futebol se dá nas quatro linhas. O Engenhão tem ainda, desde que foi inaugurado, placas de publicidade que cobrem a linha de fundo toda e isto inclui a linha do gol. Então, você paga 30 reais para sentar atrás da linha do gol e não vê a bola entrar. Se no Engenhão eu só vejo três linhas, ou você muda aquelas placas de lugar ou você interdita o estádio, pelo menos as alas sul e norte, porque o ingresso está sendo vendido para ver um jogo de futebol e se eu não vejo a bola entrar no gol, eu não vejo o grande momento do jogo. Então, ou tira a placa do lugar ou interdita o Engenhão. Vamos pedir a defensoria pública que eles façam alguma coisa contra o aumento abusivo do preço dos ingressos, porque os clubes botam o ingresso no preço que quiserem.
Agora, aquilo que eu pessoalmente vejo como a coisa mais importante que a ANT pode fazer é uma movimentação junto ao Congresso Nacional para votar uma lei que regulamente as escolinhas de futebol. Se você entrar num restaurante, você não vê um garçom com sete anos de idade, mas aos 7, 8,9 e 10 anos há meninos sendo explorados pelos clubes para serem depois vendidos como se fossem mercadorias. Eu acho que isso é a face mais horrenda e perversa do futebol, que é se valer do sonho de milhões de meninos - que é um sonho ao mesmo tempo de fama, de glória, de realização, e também de ascensão social - para descartar num funil gigantesco. É como o Darcy Ribeiro chamava o Brasil de um moinho que mói gente, o futebol, as categorias de base dos grandes clubes, são um moinho de crianças, são uma fábrica de destruição de sonhos. Essas crianças são exploradas, depois elas são totalmente descartadas sem nenhum apoio de serviço social, sem que haja nenhum apoio educacional. É uma máquina absolutamente perversa.
O mínimo que esses clubes tem obrigação de fazer é, se eles querem treinar essas crianças, ter um limite para esse treinamento e tem que ter um processo de profissionalização. Os clubes tem que ter escolas próprias profissionalizando esses garotos. Se um garoto vai treinar no São Paulo, por exemplo, aos sete anos, então o São Paulo vai ter que assinar um compromisso que vai ter uma escola onde haja ensino de língua, de computação, um ensino de primeira qualidade e profissionalizante e ele vai ter que ficar com esse garoto até ele concluir o segundo grau.  A gente que ama o futebol tem a obrigação ética de amar um futebol que no mínimo dê um retorno educacional a esses garotos.
Meu outro sonho é fazer o que existe na Inglaterra, onde o Ministério da Cultura banca um reforço escolar para garotos e garotas de comunidades usando as instalações dos clubes. O Corinthians, vamos dizer, vai montar 10 escolas dessas em toda a periferia, mas monta também uma sala multimídia, de maneira que as crianças das escolas municipais do entorno possam passar algumas semanas ali. Pode ter a revista do Corinthians e isso ser usado para ensinar português, gramática, redação. Isto representa afirmar o vínculo do clube com a comunidade e é usar o futebol como uma arma da educação. Eu, como professor, tenho um sonho de usar o futebol, de fazer uma pedagogia do futebol. Ele tem penetração em todas as classes, é uma língua geral, e isso poderia ser usado de um trilhão de maneiras e hoje ele só é utilizado pelo mercado, só é usado de uma forma feitichizada. Ele poderia ser usado para combater a homofobia, o sexismo, podemos fazer várias parcerias com os movimentos sociais. Aliás, eu quero aproveitar este espaço para prestar uma homenagem ao MC Leonardo, porque foi numa conversa com ele e inspirado na luta da ApaFunk (Associação dos profissionais e amigos do funk), que é a madrinha da ANT, que a gente teve a ideia de fazer a associação. A gente está inspirado por eles.
>> Conheça os sete objetivos da ANT, uma organização sem fins lucrativos para lutar contra:
1.     A exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol, fruto de uma política deliberada de diminuição da capacidade dos estádios, extinção de setores populares dos estádios e aumento abusivo dos ingressos
2.     O desrespeito à cultura torcedora com a extinção de áreas populares como a geral, onde há uma tradição própria de participação no espetáculo que inclui assistir ao jogo de pé (o que acontece na Alemanha)
3.     A falta de transparência no futebol brasileiro, há décadas nas mãos de dirigentes incompetentes e corruptos; exigimos a democratização das decisões acerca do futebol brasileiro com a participação dos torcedores; por exemplo: as sucessivas e milionárias reformas do Maracanã, feitas sem nenhuma consulta aos torcedores
4.     A exploração politiqueira do futebol visando eleger candidatos que aproveitam-se da sua popularidade para conseguirem mandatos contra o povo
5.     O controle das tabelas e horários dos campeonatos na mão da rede de televisão que há décadas detém o lucrativo monopólio das transmissões televisivas de jogos de futebol; horário máximo de 20h para o início das partidas durante a semana e 17h aos domingos
6.     A retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas
7.     A falta de meios de transporte dignos durante os dias de jogos; exigimos esquemas especiais em dias de jogos
Fonte: Caros Amigos

* Saiba mais sobre a ANT pelo twitter @ANTorcedores e pelo site

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